A POESIA DE HERMES VIEIRA
(Antologia poética piauiense - J. Miguel de Matos. Editora Artenova. Ed.1974. Págs: 157 a 164)

Artur Passos, por desejo de meu coração, que vai abrir, com a pena já divinizada pelo trato das Letras, este canto de "Caminheiros da Sensibilidade", onde vai arrulhar, em trinados de tristeza e de alegria, o poeta folclórico Herdes Vieira, prata de casa, nascido, como João Ferry, na suave Valença, alentada pelas cantigas dolentes do Caatinguinha:
É preciso destacar, outrossim, que a história da literatura ocupa-se de obras concebidas e desenvolvidas por indivíduos identificados e largamente conhecidos, enquanto o folclore, pelo consenso unânime de seus cultores, estuda contos e lendas que não tenham autores individuais; que andam de boca em boca e possam ser qualificados em consonância com determinado número de categorias universais; que nada tenham, na contextura literária, que possa permitir dar-se-lhes autor individual ou particular, nem época, nem origem, e muito menos ainda arbitrária classificação em outras categorias literárias, formando categoria à parte. E se as narrativas de La Fontaine e as de outros tabulistas mais recuados, não obstante a conclusão moral que tenham sob o "véu diáfano da fantasia" e cujos personagens são irracionais que trocam idéias, contendem entre si, exercem atividades sociais e brigam à base do amor; ou se essas narrações de coisas imaginárias, como contos de sereias e de encantamentos, são, em parte, aceitas como matéria folclórica não é pelo conteúdo em si fantástico e puramente imaginário que contêm, mas por conterem, na essência, algo mais que simples fantasias; por guardarem como um relicário restos de crenças e costumes de outros tempos, não passando animais que falam, príncipes encantados e princesas mitológicas formosas como o despontar da manhã, transformadas em aves, às vezes em serpentes, e até em coisas inanimadas, de evidente sobrevivência de antigas divindades, objetos outrora de culto, que o cristianismo. Levou para o campo da superstição e mais tarde para os domicílios da literatura sendo, ainda, um liame que deve ligar e unir por fortes.laços morais o homem da era eletrônica ao dos tempos fabulosos de Prestes João e da Rainha de Sabá".
Fazendo, quase só, a apologia dos vates que caminham nesta obra, pois ela não tem sentido essencialmente critico, não me prendo, por força dessa derivação, ao estudo aprofundado do que o poeta produziu para a vastidão da Literatura, trazendo-o, antes, se vivo, ao conhecimento da geração atual, e, se morto à lembrança ingrata dos que ainda carregam nesta vida, como um Jesus redivivo, o pesado madeiro de seu sofrimento.
Hermes Vieira, a maior expressão da poesia folclórica do Piauí, se chama, por inteiro, Hermes Rodrigues Cardoso Vieira e tem o umbigo enterrado em Elesbão Veloso, município da Cidade de Valença. Nasceu a 23 de Setembro de 1911. É filho de Raimundo Rodrigues Cardoso Vieira e de Joaquina de Sousa Viana, ambos já aliviados, por bondade de Deus, do pesado surrão da Vida. Muito viajado, esteve alguns anos na Amazônia, onde bebeu, fartamente, em cantata com o "Inferno Verde", vivendo na ambiência trepidante e misteriosa daqueles matões Envios, o néctar que, mais tarde, na tropicalidade de sua terra natal, iria destilar para o acervo cultural de seu povo.
Como Giovanni Papini, Machado de Assis, João Ferry e tantos outros que a memória teima em esconder, Hermes Vieira, enfiado no ventre das noites, acolitado por livros de capas gastas e à vaga claridade de lamparinas fumacentas, é cultura autodidata, que, para algum anelado, pode constituir mancha na luz ofuscante que os seus pés vão deixando nos caminhos que percorre, sustendo a Lira e padejando o verso.
"0 Órfão Caboclo" abre este trabalho sobre o poeta de Elesbão Veloso, e o leitor vai sentir, mesmo que tenha o coração de pedra, que canto de amor há em seus versas, ditos na linguagem de quem sabe apenas sentir, na gramatização violenta e nativa que o caboclo, livre como um passarinho, vai deitando nas veredas, nas ruas, nas clareiras e nos bordéis improvisados, de que está cheio o sertão:
"Faz dez ano qui eu nasci,
e seis faz qui me intindi;
E dos seis então pra cá,
Sem perde nenhum insejo,
Noite e dia, alegre vejo
Tanta coisa d'incantá:
Vejo os lago e vejo as fonte;
Vejo os morro e vejo os monte;
Vejo os campo e os matagá,
Os serrote e as colina,
Tabuleiro e as campina,
E as cascata saluçá;
Vejo alegre a passarada;
Vejo as báxa fulorada;
Vejo as lindras brobuleta,
Báxa a riba e báxa abáxo,
Sacudindo os leves cacho,
Das bunina e violeta;
Vejo as nuves azulada,
Pur'os vento carregada
Neste ispaço co de ani;
Cumo um pranto de Maria,
VeJo as chuva clara e fria,
Lá do céu no chão cai;
Vejo vim do chão moiado
Tudo quanto foi prantado
Pur'as mão do lavrada;
Também, vejo vim os matim,
Semiado cum carim,
Pur'as mão do Criadô;
Vejo o Só morre dorado;
Vejo o céu azu istrelado;
Vejo a lua dispontá
Pratiada sobre as serra,
Istendendo cá na Terra,
As tuáia de luá;
Vejo as fria madrugada;
Vejo o branco d'arvorada;
Vejo a d'Arva aparece;
As manhã vejo raiá;
Vejo o dia clariá;
Vejo o Só de oro nasce;
Vejo pai, vejo irmão,
Entre nos vejo união;
Vejo a casa onde nasci...
Mas o meu maia desejo
D'inxergá, porém num vejo,
É mamãi, qui eu nunca vi !"
Segundo Hermes: “Há uma lenda muito conhecida, notadamente nos arrabaldes do Nordeste, batizada pelo sabor do zé-povinho de "Mãe-da-Lua", "Chora-Lua" ou "Urutau". É uma ave noturna de canto dolente e entrecortado, dando, a quem tem o ouvido preso aos seus trinados de tristeza, a impressão de uma gargalhada melancólica de quem disfarça a acrimônia de uma angústia.”
Em "Lamentos de Mãe-da-Lua", Hermes Vieira, forjicando uma grafia adrede e cuidadosamente estudada, põe nos lábios do leitor a pronúncia real do caboclo, no seu desleixo lingüístico e na sua conhecida preguiça mental:
"No sertão, nos matagais,
Quando vai no céu a lua
E nas fontes cristalinas
O luar meigo flutua,
Um silêncio agreste e doce
Deixa tudo extasiado;
Pelo espaço enluarado.
E uma voz dolente ecoa
Essa voz que dissimula
Uma dor a gargalhar,
É notória no sertão
Pelas noites de luar.
É a voz da Mãe-da-Lua
A chorar o ausente esposo
Que, segundo afirma a lenda,
teve um fim misterioso.
Era um pobre lenhador;
Certa vez, indo lenhar,
Por motivo inexplicável,
Não voltou mais ao seu lar.
Mãe-da Lua, em desespero,
Coração angustioso,
Atirou-se pelas brenhas
A procura do esposo.
Andou muito, mas, debalde:
O marido não encontrou,
E por isso nunca mais
A cabana ela voltou.
E depois, num ramo nu,
Sob um manto de luar,
Outras aves encontraram
Mãe-da-Lua a soluçar.
Não querendo a infeliz ave
Pelas outras ser zombada,
Logo o pranto simulou
Numa triste gargalhada.
E num galho, solitária,
Mergulhada no luar,
Ela ainda continua
Com seu triste gargalhar.
Como oculta a Mãe-da-Lua,
Gargalhando os seus tormentos,
Muitos riem, assim também,
Ocultando os sofrimentos".
A pavorosa seca de 1932, com seu manto de desgraça, arrastou para a miragem do vale do Itapicuru, que corta as entranhas ubertosas do Maranhão lírico e sentimental, dois personagens que inspirariam, no correr dos dias, ao poeta folclórico Hermes Vieira, versátil e fecundo, a sua mais imortal produção literária. Chamavam-se esses dois personagens de Hermes: Piroca e Loló, ele vindo de Pernambuco e ela do Rio Grande do Norte. Apaixonados ao primeiro raio do olhar esbraseado pela paixão, amaram-se no primeiro encontro, ali adiante o Itapicuru coleando e gemendo no tumulto de suas águas. Mas o destino, pela mão dos pais de Loló, meteu-se entre aqueles dois jovens corações para angustiá-los. Piroca, distante de sua bem amada, metia-se na cachaça —"água que-gauinumbi não bebe"—para afogar as tristezas que a saudade de Lolô ia Ihe cravejando no coração. Certo dia— lá vem o certo dia de cada vida! — Piroca, distendendo a vista pelas margens do Itapicuru, vislumbrou, na face inquieta das águas, a figura morena de sua amada frisando a linfa com as diabruras de seus dedos, Loló, afogueada pelo olhar ardente de Piroca e querendo fugir da calidez que Ihe incendiava o coração apaixonado, faz das águas um imenso lençol para esconder a beleza e a virgindade de seu corpo.
O corpo inteiramente engolido pelas águas do Itapicuru e a cabecinha aparecendo vagamente à flor da corrente liquida, Loló provoca o diálogo que Hermes Vieira batizou com o nome de "A Falsa tara":
" Seu Piroca, eu vou já contá papai,
Qui você, de marcado, me viu nua!
Tá brincando, Lolô, qui tu num vai
Ispaiá tá conversa pula rua!...
Eu num vou?!... Pois num vá se apreparando
Pra se te cum papai ou cá mamei!...
Num vá, não!... Quê qui que você oiando
Eu dispida, seu nojento, tomá boi?...
Ai, Loló, vou contá pruquê cá vim,
Qué pratu num cuidá qui foi mardade...
Apois bem, todo o causo foi assim...
Tenha carma e me sunte esta verdade:
Muitos conta qui sai dos sêi das água,
Certa moça tão lindra de incantá,
Qui se chama de iára ou de mãe-dágua,
E tem ela um palaço singulá.
No momento qui sai do seu palaço,
Se abiserva qui as água e os peixe pára;
Lá de fora se cala logo os passo;
E grita os pescada: "Lá vem a lára! "
Ela, intão-se, aparece bem formosa
Cum seu corpo bem arvo e toda nua...
Dê pru vista no céu, quando sodosa,
Vem subindo, subindo, a branca Lua...
Tem siás face tão lindra cumu o dia .
Quando rasga da noite a preta sáia;
E seus óio tem tanta maravia
Cuma d'Arva nos máre quando ráia.
Seus cabelo são grande cumo os fio
Qui se tira dos pé de caruá;
E purisso, somente, num tem frio,
Pois faz deles lençó pra se imbruiá.
Tem seus láibos fazidos de carmim,
Perfumados de amo, de sedução;
Seu prefume é de frô de bugarim,
Das abrida nas noite de verão.
E siá voz é tão doce cumo o mé
Qui se incontra nos favo do urussu;
E arguém diz qui de lindra imita inté
Cum o sedoso canta d'uirapuru.
Seus dois sei são dois fruto num só gái,
Dos qui fica agrudado na madêra,
Qui balança, sacode, mas num cái,
Mas são fruto qui mermo verde chera...
E ela, intão, purriba assim da frô,
Da frô dágua, se fica sem move;
Desse jeito ela atrai o pescada,
Qui vai indo im seu rumo sem querê.
Foi purisso, Lolô, qui mi atrivi
Incostá mia canoa onde tu tava,
Cuidando qui tu era (nunca vi!)
A Mãe-dágua, Lolô, qui mi chamava...
— E tu gosta... Piroca, deu, tu gosta?
— Eu ti juro, Lolô, pur todo o santos
— Pois, então, toda a tarde tu incosta
Tua canoa, benzim, neste recanto. . . "
A poesia folclórica, por sua originalidade, pelo sabor ativo de sua narração, pela agressividade da linguagem, pela ardência do verbo matuto, tem o gosto daquela ceia servida no Saco da Braba, destes cafundós do Piauí, nos versos matutos de Hermínio Castelo Branco:
"Cada qual, com sua faca,
de cócras junto à panela,
foi tirando com a cuia
que servia de tijela,
e despejando a farinha
na coalhada, dentro dela".
"Misturando a carne assada,
gorda, frescal e cheirosa,
todos ficaram contentes
com a ceia apetitosa:
nem no Céu nunca se viu
comida tão saborosa".
Não seria, narrando em rápidas pinceladas a poesia folclórica de Hermes Vieira, que este autor olvidasse o sentido nativo dos versas do poeta de Valença, tendo no coração a imagem da terra natal, osculada no inverno pela água das chuvas que despencam do Céu fragmentadas e cristalinas, e abrasada nos estios pelos raios de fogo do sol.
E o soneto "Piauí" saiu da forja do poeta, nestes versos que o coração não pode reter na sua sensibilidade e nos seus arcanos:
"Teus montes, as montanhas e as colinas;
Teus vales ubertosos, florescentes;
Teus campos matizados, sorridentes;
Teus brejos fabulosos de águas frias;
Teus rios, tuas fontes cristalinas;
Teus lagos pequeninos, transluzentes;
Teus bosques perfumados, viridentes;
Teus belos chapadões e as campinas;
Teus ricos e pomposos estendais
De flores e de frutos naturais;
De lindas borboletas multicores;
De ledos e canoros passarinhas,
São tudo para mim dourados ninhos,
São bálsamos que acalmam minhas dores!"
Este é Hermes Vieira que Valença, pela data de Elesbão Veloso, deu ao Piauí. Um presente de raro valor, uma luminescência de ofuscante brilho, uma luz de embevecente claridade!
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